Um Artista da Fome é um conto escrito por Franz Kafka em 1922 e seu protagonista é um jovem artista de circo que vive da renda adquirida pela performance de jejuador. O espetáculo consiste em assistir o desafio do artista preso em uma jaula onde priva-se de alimento por vários dias, de modo que o público espera que a cada apresentação o artista consiga superar em dias a sua performance anterior. Seu empresário todavia, não permite que o jejum ultrapasse 40 dias, prazo máximo para manter a atenção do público segundo sua opinião. O artista, no entanto, julga ser capaz de se manter em jejum por muito mais tempo.

A luta pela sobrevivência requer do protagonista deste conto a sua morte rotineira. Enfraquecido ao final de cada apresentação o artista ainda não se vê satisfeito, gostaria sempre de ter ficado jejuando por mais tempo. Se sente até mesmo incompreendido e não gosta quando o público se sensibiliza com o que julga ser seu grande sofrimento, pois para ele jejuar não é  sacrifício nenhum. 

Esse conto pode ser uma metáfora interessante para pensar o sujeito no capitalismo contemporâneo. O artista da fome nos mostra um indivíduo refém do seu ofício, e para quem, a auto realização implica auto destruição de suas forças vitais. 

A cultura do desempenho e da produtividade enquanto forma de auto realização nunca foram tão propagadas como no tempo presente, veiculadas não somente pela propaganda empresarial, elas aparecem com frequência por meio da indústria cultural e  também por discursos institucionais de promoção da saúde e do bem-estar. Mas em que consiste de fato essa auto realização? Nas sociedades modernas ela constitui-se basicamente em trabalho. 

Assim como o artista da fome, que no conto não possui nome e sua única atividade consiste em jejuar, o sujeito no capitalismo contemporâneo tem sua ação e identidade reduzidas à esfera do trabalho, dado que o desempenho profissional captura todos os aspectos da vida. Para o trabalhador periférico que todos os dias percorre longas distâncias até o seu posto de trabalho, o dia-a-dia se resume à passar 9 horas no ambiente de trabalho e gastar, quando pouco, de 3 a 4 horas na ida e na volta para o mesmo. As horas restantes são de completa exaustão, quando ainda obriga-se a busca constante por uma educação voltada ao mercado de trabalho, já que não é suficiente o trabalho nos tomar metade do dia produzindo lucro, precisamos constantemente aperfeiçoar a técnica de produzir esse lucro sob pena de, não fazendo isso, sejamos trocados por um indivíduo desesperado em meio a  massa de trabalhadores desempregados. 

Ao final de cada espetáculo o artista da fome gostaria de poder ter ficado mais tempo jejuando, do mesmo modo, o indivíduo moderno é aquele que vive constantemente com o sentimento de culpa por, apesar de exausto, não ter feito o suficiente. Reproduzimos frequentemente o termo procrastinar, que significa o adiamento de uma tarefa, e a todo tempo somos ensinados através de tutoriais e mensagens de motivação como não ser um procrastinador, como produzir cada vez mais. Jamais alcançando o ponto de repouso estamos concorrendo contra nós mesmos, e se não mudarmos essa cultura da auto realização destruidora permaneceremos nessa aflição até sucumbir. 

Nessa sociedade somos bem sucedidos quando estamos devidamente educados para o trabalho e inseridos no mercado vendendo nossa carne, exaurindo nossas forças na produção de um lucro que não é nem será nosso, pois enquanto sujeitos periféricos, negros, pobres, essa é a única inclusão social que deveríamos desejar.  

Estamos reféns da irracionalidade do modo de produção capitalista, onde a  produção de lucro ilimitada só é possível a partir da destruição, não só de nossos corpos mas da natureza, ambos perecíveis e intitulados modernamente de recursos humanos e recursos naturais, respectivamente. O recurso humano, tema sobre o qual esse texto se debruçou, se tornou homogeneizado em torno da figura da empresa e da profissão, uma violência sem precedentes contra as formas plurais da subjetividade e de liberdade humana. O artista da fome, utilizado enquanto metáfora, talvez nos ajude a ilustrar melhor essa nossa terrível condição.


Por Thais Fernandes Pereira

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